E vocês sabem que sou uma pessoa bastante literal. Então, eu me ferrei literalmente num único passo.
Tudo começou por causa de uma cama de casal. Na verdade, tudo começou porque sou um desastre e nasci com dois pés esquerdos. Sou capaz de coisas incríveis quando o assunto é “estabano”. E esse foi só mais um dos meus episódios de “estabanismo”. Então, tudo começou com uma cama de casal num dia chuvoso. Minha amiga está de mudança e não havia lugar para a tal cama na casa nova dela. Pedi a ajuda do meu irmão e de um amigo que tem uma pick up para transportar a cama. Aqui na frente da minha casa já, subi num degrau para agradecer a ajuda do amigo, só que na hora de descer…
Atenção que estamos falando de um degrau entre a minha calçada e a calçada do vizinho, com cerca de 30 cm de altura. Normalmente eu iria correndo até lá medir e fotografar, mas “ir correndo” é o tipo de coisa que não está nos meus planos nas próximas semanas. Posso culpar o degrau alto. Posso culpar o dia chuvoso. Mas a verdade é que sou um desastre e falseei o pé na hora de descer o tal degrau. Daí a coisa foi literalmente ladeira abaixo.
Quem viu disse que caí e ainda desci um tanto da minha calçada ralando a cara no cimento. Meu primeiro pensamento foi “Que vergonha, todo mundo me viu cair!”. Meu segundo pensamento foi “ARRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRGGGGGGGGGGHHHHQETYQTWUQWYTY!!!!!”. Dor dor dor muita dor. Como eu nunca havia sentido. Porque pra mim o que aconteceu foi o seguinte: na hora de descer o tal degrauzão, virei o pé esquerdo e caí em cima da perna direita. Óbvio que alguma coisa estava muito errada. A dor era surreal.
Minha amiga disse que a primeira reação quando ela viu a cena foi correr pro carro e acender um cigarro. Sim, ela precisava se acalmar né? Meu irmão disse que parecia que estavam matando um porco. E meu amigo se limitava a me encarar de olhos arregalados. Lógico que tudo isso durou apenas alguns segundos. Logo meu irmão correu pegar gelo, meu amigo correu pra me ajudar e apoiou as minhas costas e minha amiga correu pra tirar os tênis que eu estava usando. Porque sim, não tenho nem como dizer que estava de salto alto pra ter tomado um tombo daquele jeito.
Meu irmão e meu amigo me colocaram no carro da minha amiga, que me levou ao hospital. Sei que perguntaram alguma coisa, mas eu só conseguia chorar e pensar na dor. Tenho certeza que na hora meu irmão não deve ter achado que era sério, visto que tenho fama de ser um tantinho escandalosa. Mas meus dois tornozelos se transformaram em bolas gigantes e assustadoras. Me lembro muito pouco de como cheguei ao hospital. Só sei que cheguei pedindo algum remédio de qualquer coisa que fosse pra tirar AQUELA DOR FILHA DA PUTA que eu eu estava sentindo. Consegui, e um enfermeiro veio aplicar uma injeção na minha bunda. Oi, na bunda? Não podemos negociar um pouquinho, tio? Não, não dá. É dor demais. Tanto que nem senti a injeção.
Talvez eu estivesse fazendo uma cena, porque virei a atração da sala de espera. Sentia as pessoas se compadecendo da minha dor, e acho que devia ter gente lá com problemas bem mais sérios que o meu. Obviamente eu não sabia qual era o meu problema até o momento. Me encaminharam ao raio X quase que em seguida e eu comecei a rir. Não sei o que tinha naquela maldita injeção, mas certamente as piadinhas do meu irmão não estavam ajudando. Ele me comparava ao Abaporu e pedia que eu não desse risada, porque senão iam achar que meu caso não era sério.
Parei de rir e finalmente olhei meus pés. O tornozelo esquerdo estava gigante. O direito não estava tão inchado, mas era ele que me preocupava: era muita dor pra um tornozelo só. Na hora de tirar o raio X, o médico conseguiu posicionar meu tornozelo esquerdo tranquilamente, mas quando tentou posicionar o direito, eu chorei feito criança. Peguei o raio X e olhei com muita atenção. Eu fui uma aluna excelente de radiologia, mas não consegui enxergar a fratura. Só vi que havia algo de errado no tornozelo direito porque a fíbula parecia estar fora do lugar.
Fomos então conversar com o médico, que bateu o olho no raio X e disse “É, você tem uma fratura no pé direito.”. Me mandou tomar mais uma daquelas injeções legais, mais soro e depois fazer uma tala no pé direito. Eu estava com o pé bastante inchado, por isso ele evitou engessar. Sei que quando fui fazer a tala, a segunda injeção bateu forte e eu comecei a rir da mulher que estava fazendo o curativo no meu pé. Ela se chamava Socorro. Oras, uma médica trabalhando no Pronto Socorro e que se chamava Socorro. Eu ri.
No final da história, consegui enxergar a fratura no raio X. A fíbula direita está mesmo fraturada. O médico disse ainda que tive sorte, porque justo no local fraturado passa um ligamento que poderia ser pinçado pela fratura. Pelo que deu pra ver, a fratura está estável. Mas vou fazer outro raio X semana que vem pra ver se algo saiu do lugar. Daí não tem choro nem vela, vou ter que fazer cirurgia. Enquanto isso, o pé esquerdo está com uma entorse bastante séria. Não posso apoiar no chão, sob o risco de fraturar o local onde ocorreu a luxação. Assim, não posso utilizar nenhum dos dois pés e fui gentilmente obrigada pelo médico a não me mexer pelo menos durante a próxima semana. O que significa que nesse exato momento eu deveria estar deitada na minha cama com os pés pra cima. Mas assim não tem DS que chegue né? Então fico na cadeira de rodas, pra cima e pra baixo (dentro da minha casa só, obviamente).
Resumindo a coisa toda: eu sei que é uma situação bastante chata. Eu estava com passagem comprada pra viajar amanhã pra Campo Grande. Ia passar o mês estagiando na minha terra, na casa de uma tia. Estava feliz e animada com a viagem. Mas depois de um tempo, comecei a pensar no assunto e parei de reclamar. A coisa toda podia ser bem pior e minha situação é temporária. Mas isso é assunto pra outro post, que eu já me alonguei demais. :)

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